Escrito por Masaya Llavaneras Blanco
Como uma das quase 8 milhões de pessoas que integram a diáspora venezuelana, fui pega de surpresa pela notícia dos dois terremotos que atingiram o país em 24 de junho. Ambos ultrapassaram a magnitude 7 na escala Richter e ocorreram com apenas 39 segundos de diferença.
Embora nós, venezuelanas e venezuelanos, estejamos acostumados a enfrentar uma sucessão de notícias impactantes — incluindo intervenções estrangeiras, protestos em massa e violência política, ao mesmo tempo que lidamos com a grave precariedade cotidiana que afeta a maior parte da população —, quase ninguém esperava esses terremotos. Não houve nenhum alerta ou aviso público sobre a possibilidade de um desastre dessa magnitude atingir o país no curto prazo.
Depois de passar as primeiras horas entrando em contato com familiares e pessoas amigas para ter certeza de que estavam em segurança, a pesquisadora e ativista feminista dentro de mim entrou em ação. Comecei a conversar com outras feministas venezuelanas que estavam no país, buscando formas de apoiar seu trabalho enquanto tentava compreender a situação: quantas pessoas haviam sido afetadas? Que sistemas existiam para apoiar tanto quem estava sendo resgatado quanto quem realizava os resgates?
Essas perguntas não surgiram do nada. Minha pesquisa “Embodying the Cost of a Predatory State: Depletion via Social Reproduction in Venezuela’s Crisis (2013–2021)” [Vivenciando no corpo o custo de um Estado predatório: esgotamento por meio da reprodução social na crise venezuelana, em tradução livre], em coautoria com Antulio Rosales, analisa a emergência humanitária complexa que vem se desenvolvendo na Venezuela há mais de uma década. A capacidade do Estado encontra-se profundamente limitada. Para dar apenas um exemplo, Caracas, a capital, dispõe de apenas duas a 12 ambulâncias públicas em operação por dia, dependendo da fonte consultada.
A deterioração institucional do país é inegável e tem afetado de forma desproporcional as mulheres e meninas, que tradicionalmente assumem a tarefa de sustentar um sistema de cuidados em ruínas. Quando somamos a isso o impacto de uma catástrofe repentina, como um terremoto, o resultado é uma uma cadeia de demandas urgentes e conectadas, acompanhadas vulnerabilidades intensificadas pelas disparidades de gênero.
Onze dos 23 estados do país foram afetados pelos terremotos, sendo La Guaira, partes do estado de Miranda e a capital, Caracas, as regiões mais atingidas. Até 20 de julho, os dados oficiais contabilizavam 5.398 pessoas mortas e 16.740 feridas. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) estima que 23.820 pessoas estejam em abrigos e prevê que 1,3 milhão de pessoas precisará de algum tipo de assistência nos próximos seis meses.
Contudo, no âmbito dessa recente crise humanitária, dados desagregados por sexo e gênero permanecem inexistentes. Além disso, as informações referentes às demandas de direitos e saúde sexual e reprodutiva (DSSR) e de violência baseada no gênero (VBG) são escassas ou praticamente inacessíveis.
Uma crise humanitária prolongada e complexa, com profundas implicações de gênero
A complexa crise humanitária que o país enfrenta há mais de uma década resulta da interação entre políticas governamentais insustentáveis e a má gestão da indústria petrolífera, agravada pela imposição de sanções setoriais pelos Estados Unidos em 2019.
As limitadas capacidades institucionais do Estado foram redirecionadas para o controle da população e a repressão da dissidência. Essa violência estatal pode ser observada, por exemplo, no fato de que as mortes de civis pelas mãos da polícia aumentaram sete vezes entre 2010 e 2018, processo que ocorreu paralelamente à drástica deterioração dos serviços públicos e do acesso aos alimentos. Nesse contexto, aproximadamente 7,9 milhões de pessoas deixaram o país, a maioria a partir de 2018, chegando a seus destinos com diferentes graus de necessidade de proteção internacional.
Soma-se a isso o fato de que, em janeiro de 2026, o governo dos Estados Unidos realizou uma intervenção militar na Venezuela e deteve o então presidente Nicolás Maduro, apoiando a vice-presidenta Delcy Rodríguez e inaugurando uma nova era de tutela estadunidense sobre o país.
A prolongada crise humanitária que antecedeu os terremotos tem impactos significativos e diferenciados por gênero. É alarmante que a Venezuela registre a segunda maior taxa de mortalidade materna da América Latina e do Caribe, com 227 mortes a cada 100 mil nascidos vivos. O acesso a métodos contraceptivos também é cronicamente limitado devido, entre outros fatores, à escassez e à impossibilidade de arcar com seus custos. O aborto continua criminalizado na maioria dos casos, sob uma das legislações mais restritivas da região. Da mesma forma, a profunda deterioração dos serviços públicos aumentou a carga de trabalho de cuidados não remunerado que recai sobre as mulheres e meninas, especialmente aquelas em situação de pobreza. Isso se traduz em uma queda drástica da participação das mulheres no mercado de trabalho, que, em 2015, caiu para 39%.
A necessidade de uma perspectiva de gênero diante de uma catástrofe repentina e uma crise humanitária complexa
Historicamente, a divisão sexual do trabalho colocou as mulheres venezuelanas no centro do trabalho comunitário. Durante décadas, diferentes governos venezuelanos se apoiaram no trabalho não remunerado das mulheres nas bases sociais para acessar suas comunidades e até mesmo implementar políticas públicas. A profunda deterioração da capacidade estatal na última década agravou essa dependência excessiva do trabalho não remunerado de mulheres e meninas — uma dinâmica que hoje também se reproduz na resposta humanitária à crise prolongada. Mesmo antes dos terremotos, as mulheres já eram responsáveis pela maior parte da distribuição da ajuda humanitária, facilitando o acesso às comunidades e buscando, dentro do possível, atender às suas necessidades.
Após os terremotos, nas primeiras 72 horas de funcionamento dos abrigos para pessoas que tiveram que deixar suas casas, a Tinta Violeta identificou 22 casos de violência sexual. Esse dado ressalta a urgência de garantir condições de maior segurança e proteção, especialmente para mulheres, crianças e adolescentes, que constituem os grupos populacionais de maior risco. Isso inclui, entre outras medidas, acesso à água corrente e a instalações sanitárias seguras e privativas, acesso contínuo a produtos de higiene menstrual e a promoção de espaços de convivência pacíficos e seguros.
As respostas humanitárias devem buscar reduzir os riscos de mortes, adoecimentos e incapacidades nas populações afetadas por crises, integrando plenamente os DSSR. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) estima que 36.700 mulheres grávidas tenham sido afetadas pelos terremotos, entre elas aproximadamente 4 mil com parto previsto para o mês seguinte à catástrofe. O OCHA, por sua vez, informa que 154 mulheres em abrigos temporários receberam atendimento pré-natal, mas, mesmo um mês após os terremotos, não apresenta informações sobre a realização de nenhum parto. É evidente e preocupante o descompasso entre as necessidades identificadas no início da emergência e o atendimento obstétrico reportado.
Nesse contexto, e considerando a elevada taxa de mortalidade materna que já existia no país, é imprescindível assegurar acesso suficiente, contínuo e baseado no consentimento a métodos contraceptivos, assim como acompanhamento pré-natal rigoroso e espaços de parto acessíveis, seguros e higiênicos, com profissionais de saúde capacitados para atender as pessoas que se encontram tanto dentro quanto fora dos abrigos temporários.
Uma crise humanitária crítica com importantes desafios de governança
A complexidade de qualquer crise humanitária de grande escala tende a agravar os desafios ao funcionamento de todo sistema de governança, expondo a fragilidade preexistente das instituições. Esses desafios são exacerbados em governos autoritários que operam sob a tutela de potências estrangeiras.
Diversas reportagens evidenciam uma resposta tardia do Estado venezuelano, com atrasos na chegada às áreas críticas e uma capacidade de mobilização extremamente limitada. Mais de um mês após os terremotos, centenas de famílias continuam procurando familiares desaparecidos, sem saber se sobreviveram ou onde estão, enquanto o sistema público de informações não registra nenhuma atualização desde o dia 2 de julho. Embora não existam dados oficiais sobre as pessoas desaparecidas, a iniciativa da sociedade civil Desaparecidos Terremoto Venezuela estima que mais de 29 mil pessoas ainda estejam nessa situação.
No momento em que este artigo foi escrito, havia 107 abrigos temporários distribuídos por cinco estados. A gestão desses espaços foi atribuída a diferentes ministérios do governo, independentemente de suas áreas de competência. O acesso da sociedade civil aos abrigos é limitado e depende da autorização do ministério responsável por cada um deles. O UNFPA, por exemplo, ofereceu apoio relacionado aos DSSR a apenas quatro abrigos — dos 107 em funcionamento — durante o primeiro mês após os terremotos, o que evidencia o alcance limitado das abordagens específicas nessa área. Essa estratégia fragmentada restringe a prestação de contas e dificulta que questões urgentes, como a violência baseada no gênero e as necessidades relacionadas aos DSSR, sejam tratadas em todas as dimensões da resposta humanitária.
‘Earthquakes and governance: why we need a gender lens in Venezuela’s compounding crises’ foi publicado originalmente em inglês em ODI.org, no dia 4 de agosto 2026. O texto original está disponível em: https://odi.org/en/insights/earthquakes-governance-gender-lens-venezuela-compounding-crises/
